O longa-metragem “Chega de Fiu Fiu” trata da participação das mulheres nos espaços públicos, marcada por uma série de violências, em especial o assédio sexual, e examina como campanhas e outras dinâmicas criadas por ativistas e movimentos feministas no período de 2014 a 2017 têm modificado relações de poder entre homens e mulheres nas ruas e na internet.

“Entraves como a falta de iluminação, lugares ermos, a dificuldade de mobilidade, longas distâncias na locomoção de casa ao trabalho, ausência de creches e péssimo atendimento em serviços de saúde e segurança seguem como catracas visíveis e invisíveis do acesso das mulheres às cidades. Tais entraves revelam o quanto as cidades foram construídas sem a perspectiva de gênero e agravam ainda mais as violências sofridas pelas mulheres, como o assédio. O filme é um retrato dessa violência de gênero em um contexto ainda pouquíssimo explorado: o espaço público. A pergunta que nos fizemos ao longo de todo o filme é ‘qual é o lugar das mulheres nas cidades?’”, diz Amanda Kamanchek, diretora do documentário.

“Chega de Fiu Fiu – O Filme” traça uma narrativa composta de três momentos: a utilização de um óculos com uma microcâmera escondida, utilizado por mulheres em seu dia a dia; a vida de três personagens de diferentes cidades (Brasília, São Paulo e Salvador) e o diálogo entremeado com especialistas e homens sobre assédio, corpo e masculinidades.

“Não só as entrevistas com três personagens, mas a dinâmica de cada uma delas com suas cidades foi nos ajudando a construir o argumento real do filme. Ao longo do projeto, criamos alguns artifícios de filmagem como o óculos-espião, o que nos permitiu explorar de maneira muito forte o modo como o corpo é percebido no espaço público. Dessa forma, as personagens puderam também se utilizar de um instrumento de denúncia. E, em adição, o próprio corpo delas se tornou uma ferramenta dessa narrativa. Em suma, convidamos essas mulheres a colaborar com o documentário de fato e isso nos trouxe ainda mais verdade e emoção”, diz Fernanda Frazão também diretora do filme.

De acordo com pesquisa da ActionAid de 2016, 86% das brasileiras já sofreram violência sexual ou assédio em espaços públicos. Delas, 77% ouviram assobios, 57% ouviram comentários de cunho sexual, 39% xingamentos, 50% foram seguidas, 44% tiveram seus corpos tocados, 37% presenciaram homens que se exibiram para elas e 8% foram estupradas.

Muitos anos se passaram desde que as mulheres começaram a circular com maior frequência nos espaços públicos, mas este espaço ainda lhes é negado. A pesquisa do Ipea de 2014, “Tolerância social à violência contra as mulheres ”, mostrou que 26% dos brasileiros concordam com a afirmação de que “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”. Outro estudo recente do Fórum de Segurança Pública (2016) mostra que 1 em cada 3 pessoas acreditam que “mulheres que se dão ao respeito não são estupradas”. Uma violência baseada na ideia de que quando uma mulher não se comporta, ela deve ser punida.

Tais pesquisas revelam o pensamento atual de muitos homens que ainda consideram inaceitáveis certas condutas e escolhas das mulheres, como "ficar bêbada", "sair de casa sem o marido" e "usar roupas justas e decotadas".

Mais de 1.210 pessoas contribuíram com o filme, por meio da plataforma de financiamento coletivo Catarse. O filme foi recorde de arrecadação na plataforma, atingindo sua meta de financiamento em menos de 24 horas. Personalidades como Laerte, Karina Buhr e Gregório Duvivier já se posicionaram a favor da iniciativa.